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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O DRAMA DE 1950, CONTADO POR QUEM O NARROU


O comentarista esportivo da Rádio Globo, Luiz Mendes, revela o que sentiu durante a transmissão da trágica final da Copa de 1950 e fala sobre suas impressões para 2014.


"Foi como descrever um pesadelo, daqueles que você custa a acordar", com essa frase o comentarista esportivo da Rádio Globo, Luiz Mendes, descreveu a sensação de narrar o gol do uruguaio Ghiggia em 1950, quando o Brasil perdeu a Copa do Mundo para a seleção do Uruguai em pleno Maracanã lotado. Tido como o maior desastre esportivo da história brasileira, o fatídico jogo ainda está bem vivo na mente do comunicador da Rádio Globo, mesmo 58 anos após ouvir o apito final do árbitro e desligar seu microfone.

A tarde de 16 de julho de 1950 marcou, de forma trágica, a história do nosso futebol. O Brasil, enfim, chegara ao jogo final de uma Copa do mundo com claras chances de ser campeão. Como se tratava de um quadrangular final, bastava um empate para erguer o caneco e dar a volta olímpica no maior estádio do mundo, até então. Suécia e Espanha já haviam sido batidas com extrema facilidade na fase final por contundentes 7 a 1 e 6 a 1, respectivamente. Só restava o Uruguai, parecia estar escrito que 1950 seria realmente o ano do Brasil. Só parecia.

Luiz Mendes, então locutor esportivo da Rádio Globo, narrou a partida e apesar de conhecer a força do elenco uruguaio tinha, como todo brasileiro, grande esperança no triunfo épico de nossa seleção. Contudo, acabou sendo o porta-voz de uma verdadeira tragédia nacional, pois coube a ele falar quando todo o Brasil silenciou-se. A seleção brasileira chegou a abriu o placar já no inicio do segundo tempo, com Friaça, mas permitiu a virada do Uruguai e amargou uma derrota que ainda causa dor, aos amantes do esporte e da pátria.

Atualmente, com 84 anos, Mendes ainda lembra com clareza de detalhes importantes do embate final e fala com emoção dos momentos decisivos daquela Copa. Segundo ele, os dois gols do Uruguai foram muito semelhantes: "parecia que eles estavam inventando o vídeo tape", comentou. Segundo seu relato, no primeiro gol Ghiggia fez a jogada pela esquerda e rolou para o meio da área, para Schiaffino estufar a rede e no segundo, o uruguaio fez a mesma jogada, voltou a driblar o defensor Bigode e dessa vez ao invés de chutar, teve um reflexo e enganou o goleiro Barbosa, que imaginando o novo cruzamento deu um passo para a direita e abriu um espaço na meta por onde a bola passou.

Mendes lembra que narrou o lance com riqueza de detalhes, e foi fiel aos reais acontecimentos do fato. Conta ainda que, no momento do chute fatal, ele o descreveu, mas depois travou a voz esperando o desfecho da jogada e só depois do fato consumado bradou: Gol do Uruguai. Na seqüência se perguntou, gol do Uruguai? E o próprio respondeu, sim senhores, gol do Uruguai. E, dessa forma, sem se dar conta, ele acabou dando nove entonações diferentes para a frase "gol do Uruguai". A locução deste lance é um dos grandes ícones dessa final.

O ex-locutor conta ainda que o Maracanã foi tomado por uma tristeza compatível com seu gigantesco tamanho ao término do jogo: "Todo mundo saiu em silêncio, mas você ouvia o silêncio em forma de soluço, de choro, de um desânimo total. Até as buzinas pareciam que choravam naquele dia" relata, de forma filosófica, ainda emocionado. Segundo ele, o pesadelo causado por aquele jogo o perseguiu, como a todos os brasileiros da época, até 1958 quando o Brasil, enfim, venceu sua primeira Copa do Mundo na Suécia.

O Brasil foi escolhido recentemente como sede do mundial de 2014 e terá uma nova chance de vencer a Copa do mundo em casa. Luiz Mendes, que esteve em 13 Copas, se mostra bastante otimista com essa possibilidade e afirma que o país terá melhores condições para sediar a Copa do mundo do que teve em 1950. E se ele não pôde expressar total certeza na conquista do título, foi taxativo ao opinar sobre o que espera em termos de organização do evento esportivo: "Acredito que essa Copa vai ser realizada com muita meticulosidade por parte do Brasil e dos brasileiros". Finalizou.


Foto: Glauber Tiburtino
Colaborou: Pedro Henrique Marotti

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